Farinha Pouca

Criada em 01/12/2009 15:40 por mmc | Marcadores: art fen geral

Para compreendermos melhor os conflitos no mundo onde vivemos é interessante partirmos de premissas básicas, simples, insofismáveis e que obedeçam as leis da física. Uma delas afirma: tudo que temos ou que consumimos vem dos recursos naturais do planeta Terra, os quais são finitos. Exemplo simples: um automóvel é a mistura de bauxita (alumínio), minério de ferro (chapas), areia (vidros) e petróleo (borrachas e plásticos). Para o homem produzir riquezas, desde tijolos, tecidos, computadores, até aviões e satélites, necessita de recursos naturais, somados à energia, trabalho e tecnologia, que é sinônimo de conhecimento.

Não há alternativa, todo crescimento econômico agride a natureza porque extrai os recursos naturais que serão transformados em riquezas. Quando todos têm acesso ao consumo de riquezas – comida, medicamentos, eletrodomésticos, livros, moradia, automóveis etc. – acabam-se os chamados problemas sociais, os quais, na realidade, são problemas econômicos e, por isso, não podem ser erradicados com filantropia. Naturalmente, o padrão de vida das sociedades fica limitado pela disponibilidade desses recursos, pela capacidade de transformá-los em riquezas e pelos custos dos impactos ambientais. Até a quantidade de fotossíntese, necessária à produção de comida, é limitada pela densidade de potência de 1370 watts por metro quadrado que o sol fornece ao planeta. Não adianta querer mais energia, o sol não atende.

Sobre o assunto, é interessante reproduzirmos o que afirma a prestigiosa Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (www.newdream.org/intl): "Existem boas razões para nos preocuparmos com os impactos ambientais provocados por 5 bilhões de pessoas consumindo ao nível dos países desenvolvidos da Europa e América do Norte. Devido as altas taxas de crescimento econômico em muitas partes do mundo, bem como a rápida propagação de meios eletrônicos, publicidade e bens de consumo, nós devemos questionar que espécie de consumo futuro podemos esperar em áreas que agora estão restritas à pobreza e ao isolamento. Se todos desejarem ter o estilo de vida de alto-consumo do Ocidente, o implacável crescimento no consumo, no uso de energia, na produção de resíduos e emissão de gases pode ser catastrófico."

Por que seria catastrófico? Vejamos: os Estados Unidos, com 300 milhões de habitantes, 5% da população mundial, consomem cerca de um terço dos recursos naturais do planeta Terra, que tem 6,3 bilhões de pessoas. Por isso os americanos são ricos, porque produzem ou importam riquezas, as quais, naturalmente, têm origem na mamãe Terra; nada vem da Lua ou de Marte. Partindo desses dados concluímos matematicamente [*] algo surrealista: caso quiséssemos que todo habitante do planeta Terra passasse a ter o mesmo padrão de vida do homem americano, deveríamos multiplicar o atual consumo de recursos naturais por sete. Isto é, em média, sete vezes mais petróleo, sete vezes mais minérios, sete vezes mais energia, sete vezes mais comida, sete vezes mais água limpa e, naturalmente, sete vezes mais lixo, efeito estufa, poluição e outros impactos ambientais!

A pergunta é: a natureza agüenta? Os ecologistas e estudiosos têm respondido com um sonoro não! Precisaríamos de pelo menos dois planetas Terra.

Somando a tudo isso o egoísmo inerente aos humanos, concluímos a receita elementar que rege as relações internacionais: "farinha pouca, meu pirão primeiro!" Ou seja, devido às limitações físicas do planeta nem todos podem ser ricos. Por isso, é necessário manter o status quo entre as nações, abortar as tentativas de crescimento dos países pobres através de receituários recessivos, diminuir o padrão de consumo dos remediados e, quando muito, manter os miseráveis na linha mínima de sobrevivência. Além disso, deve-se continuar as exportações para os países desenvolvidos de riquezas e recursos naturais, incluindo a energia. "Exportar é o que importa!" Lembram-se?

Agora fica fácil compreender porque muitos brasileiros trabalham duro e não têm acesso nem ao consumo básico. A recessão, argentina ou brasileira, por exemplo, significa o quê? Desemprego, é claro, porque o desempregado come menos, consome menos. Taxar aposentado também é condená-lo a consumir menos. Mas, menos em favor de quem, cara pálida?

Bem-estar só para poucos, esta é a lógica da globalização, da internacionalização das economias, das privatizações, do enfraquecimento do estado, da criação de agências nacionais que se curvam às concessionárias, das altas taxas de juros que mantêm a recessão e o desemprego, do controle de 70% do nosso PIB por estrangeiros e das chamadas reformas, inclusive a da previdência. Tudo se resume ao controle do consumo e à transferência assimétrica de recursos. Não é à toa que o FMI tem elogiado programas assistencialistas e governos que submetem o povo a essas políticas das trevas.

Peço licença a Marx para enfatizar que a luta básica das sociedades não é simplesmente a luta de classes, mas sim a luta pelo acesso às riquezas, que agora está limitada por fatores ecológicos. É melhor falar assim, porque essa assertiva nos leva à busca do conhecimento necessário à produção, ou seja, nos leva ao desenvolvimento, enquanto o termo luta de classes pode nos induzir apenas à expropriação. Mesmo assim, é difícil convencer um rico a reduzir o seu alto padrão de consumo. É por isso que os Estados Unidos recusaram-se a assinar o protocolo de Quioto que limitava a emissão de poluentes causadores do efeito estufa. Na mesma linha, podemos compreender que a ocupação do Iraque foi para ajudar a manter o elevado estilo de vida americano, dependente do petróleo, e defender o padrão dólar que dá aos Estados Unidos a primazia de trocar papel pintado (moeda) por mercadorias.

O maior desafio de um governo responsável é encontrar os caminhos do desenvolvimento sustentável, que faça a economia crescer sem exaurir de forma irreversível os nossos recursos naturais. Junto a isso, é necessário romper com as amarras internacionais que nos impõem o atraso e o subdesenvolvimento como estilo de vida. O brasileiro não merece ficar toda uma existência apertando o cinto. Nem precisamos esbanjar, mas seria mais humano se a maioria vivesse melhor. A felicidade aumentaria e até a criminalidade iria despencar.

[*] Demonstração matemática:
Seja R o consumo de recursos naturais no mundo atual (grandezas não homogêneas). Os Estados Unidos consomem R/3.
Consumo per capita do homem do mundo: R/6,3bilhões;
Consumo per capita do homem americano: (R/3)/300milhões;
Seja M o número que devemos multiplicar o atual consumo per capita do homem do mundo para que este se iguale ao do homem americano.
M(R/6,3bilhões) = (R/3)/300milhões Simplificando R, obtemos M=7.

Weber Figueiredo  da Silva, ex-presidente da Superintendência Estadual de Rios e Lagoas-RJ (Serla), é professor de Engenharia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet-RJ).

Fonte: Fonte: Agência Carta Maior - 17/01/2005

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